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Trechos Iniciais

Curtindo aquele velho som pessimista dos anos oitenta meio enlouquecida e já enlouquecendo quem se aproxima. Sapato gasto e roupas extravagantes descendo as ruas infinitas e pensando em que eternidade cinzenta agora estariam aqueles belos ícones obscuros de suas leituras preferidas. A rainha das madrugadas, a pequena princesa da solidão vadiando sorridente pelas suas ruas preferidas, acompanhada de todos os morcegos, e todos os Vincents do mundo e todas as baratas catadoras de açúcar de todos os ralos que você nem imagina que possam existir. Pelas esquinas cada homem rato rolando seu queijo rua abaixo, rumo a uma recompensa sei lá o quê importantíssima pela qual todos morriam leprosos num fim vergonhoso. E apenas a bela Lunática Psicótica conhecia o segredo e por isso dava-se o direito de ser como era, louca, nem aí para nada, criança amparada pelas forças do destino. “E depois eu vou crescer e vou esquecer de todas as minhas caminhadas e todos os desejos e todas as glórias, todo o meu conhecimento escapará como finos grãos de areias por entre meus dedos machucados, e aí estarei eu mordendo e babando faminta até que a próxima ratoeira ponha um fim na minha triste existência”, e assim, bem maluca mesmo, ela pensava descendo ruas e mais ruas cada vez mais cheia de si.
E nessa época remota da qual poucos se lembram, Lunática não conversava com cabos-de-vassoura e nem catava gotas de esperança nas calçadas gordurosas de corpos mendigos, tampouco era conhecida como Psicótica - embora lunática ela já fosse desde os primórdios de sua existência, e isso aconteceu no dia em que a triste garota caminhava braços dados com a sua mãe, tão triste e deprimida para uma pequena menina da sua idade que a mulher mãe preocupada perguntou “minha filha, o que você vê de tão ruim e que tanto lhe deixa triste?”, e ela respondeu “são todas essas pessoas cabisbaixas, elas procuram tanto por alguma coisa, mas mãe, eu sei, e que triste seria se elas soubessem, mas não há nada pelo que procurar nesse chão concreto cinza e eu odiaria tanto vê-las sabendo disso que eu não tenho coragem de contar”, e essas eram as preocupações e melancólicas visões da pequena princesa já em sua infância e que voltariam a lhe atordoar alguns anos depois.
Nessa noite Lunática recordava-se desses momentos de sua infância se perguntando por que aquilo acontecia e também lembrando de quando melhorou, no dia em que descobriu que era tão bonita, e tão especial que era única nesse maldito mundo. “Mas por que? O que me difere dessas tristes almas decaídas que rondam por aí? Eu me encerro no meu mundo de mansões e castelos e ruelas escuras e belas damas amaldiçoadas e isso só faz com que eu esqueça que piso no mesmo mundo miserável que qualquer um e então... o que me difere dos outros?” E assim a garota sentada no muro noturno, a pedra do pensador, trilhava caminhos perigosíssimos e nos quais ela nunca deveria ter pisado. Ó triste querida! Por que procuraste pelo mal? Agora decai de seus altos degraus, ó anjo torto caído!
Caminhando por uma rua cinzenta na noite nebulosa de seus piores pesadelos ia Lunática curiosa procurando por alguma coisa. Suas músicas e seus ícones ficando para trás enquanto mais ela prosseguia e todas as vozes abençoadas do mundo tentando salvar a triste rainha santa salvadora das almas perdidas. E lá ia ela na direção de seu pesadelo supremo, as tristes visões de sua infância.


Autor(a): Vitor Tassinari Dornelles
Temas: Humanidade, Crítica, Arte
Tipo: Estória
Avaliação:
 

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