De certo
Dessa vez ela havia prometido a si mesma que faria diferente.
Por isso, ela acordara cedo, tomara uma ducha, penteara o cabelo e se maquiara.
Ela faria diferente daquela vez, ela havia jurado a si própria.
Juntou o que lhe seria necessário e foi caminhando.
Inicialmente, os passos eram apressados. Tão apressados quanto os passos urbanos correndo ao seu lado. Com pressa de chegar. “Cada vez mais perto do fim. É para onde estão indo. São todos suicidas inconscientes”.
Eram homens engravatados, confiantes e preocupados demais para desperdiçar tempo observando as crianças da sarjeta. Eram mulheres ricas demais, e muito elegantes, para olhar além das vitrines e ver o que estavam comprando. Eram jovens alienados e confusos demais para pensar em qualquer outra coisa que não fosse eles próprios.
“São todos suicidas”
Os passos foram ficando cada vez mais lentos. Era uma habilidade sua. Desistir no meio do caminho, correr de volta para casa, chorar por sete dias consecutivos, e depois tentar acreditar que a vida ainda poderia lhe ser favorável.
Ela tentava acreditar que poderia ser uma daquelas mulheres elegantes. Ou voltar alguns anos e ser uma daquelas jovens egoístas. Ou até mesmo um daqueles homens engravatados e ocupadíssimos.
Mas ela não era nenhum deles. Não era parte deles. Tampouco uma das crianças da sarjeta, ou do resto do mundo.
Parou. A quem estava tentando enganar? A si mesma? Ela nunca conseguia. Nunca conseguiria, e sabia disso.
Por algum motivo, ela nascera diferente dos demais. Não possuiria casacos, nem gravatas e nem e-mails. Nem doenças fatais, fome ou miséria. Ela não era mais uma, mas isso não significava que era mais.
Isso a assustava. O pensamento de que ela não poderia fazer nada além de existir. Esse verbo a perseguira, e o faria para todo o resto de sua vida, disso ela sabia.
Um verbo a fez. De um único verbo ela foi constituída.
Ela tinha medo. Medo de ser só mais um número nas estatísticas de suicídio. Ou de incidência de câncer. Ou de AIDS. Ou de morte por acidente no trânsito.
Um número a mais na lista telefônica. Na clínica do dentista. Na seguradora.
Ser descartável para quem amava e para quem odiava.
Não, ela sabia que não conseguiria ser como os outros. Ser como aqueles cidadãos e seus impostos; e suas carreiras e famílias.Não havia espaço para ela naquele mundo.
Para aquela mulher só havia números e desprezo. Ela era insignificante para os outros e para si.
Chegou a conclusão de que se odiava cada vez mais. Odiava-se por ser racional e poder pensar. Odiava-se por ter nascido. Tinha certeza de que a mãe deveria ter feito um aborto, e não ter morrido na hora do parto.
“Ela fez a escolha errada. Mas eu, eu farei a certa”.
Correu para a rua agitada e concretizada em preto e branco. Jogou-se quando o verde abriu, e ainda pôde ouvir os gritos antes do vermelho silencioso e do vermelho letal.
Ela não nascera no lugar certo, sempre soubera.
Ali nunca caberia tanta filosofia, de certo.
Por isso, ela acordara cedo, tomara uma ducha, penteara o cabelo e se maquiara.
Ela faria diferente daquela vez, ela havia jurado a si própria.
Juntou o que lhe seria necessário e foi caminhando.
Inicialmente, os passos eram apressados. Tão apressados quanto os passos urbanos correndo ao seu lado. Com pressa de chegar. “Cada vez mais perto do fim. É para onde estão indo. São todos suicidas inconscientes”.
Eram homens engravatados, confiantes e preocupados demais para desperdiçar tempo observando as crianças da sarjeta. Eram mulheres ricas demais, e muito elegantes, para olhar além das vitrines e ver o que estavam comprando. Eram jovens alienados e confusos demais para pensar em qualquer outra coisa que não fosse eles próprios.
“São todos suicidas”
Os passos foram ficando cada vez mais lentos. Era uma habilidade sua. Desistir no meio do caminho, correr de volta para casa, chorar por sete dias consecutivos, e depois tentar acreditar que a vida ainda poderia lhe ser favorável.
Ela tentava acreditar que poderia ser uma daquelas mulheres elegantes. Ou voltar alguns anos e ser uma daquelas jovens egoístas. Ou até mesmo um daqueles homens engravatados e ocupadíssimos.
Mas ela não era nenhum deles. Não era parte deles. Tampouco uma das crianças da sarjeta, ou do resto do mundo.
Parou. A quem estava tentando enganar? A si mesma? Ela nunca conseguia. Nunca conseguiria, e sabia disso.
Por algum motivo, ela nascera diferente dos demais. Não possuiria casacos, nem gravatas e nem e-mails. Nem doenças fatais, fome ou miséria. Ela não era mais uma, mas isso não significava que era mais.
Isso a assustava. O pensamento de que ela não poderia fazer nada além de existir. Esse verbo a perseguira, e o faria para todo o resto de sua vida, disso ela sabia.
Um verbo a fez. De um único verbo ela foi constituída.
Ela tinha medo. Medo de ser só mais um número nas estatísticas de suicídio. Ou de incidência de câncer. Ou de AIDS. Ou de morte por acidente no trânsito.
Um número a mais na lista telefônica. Na clínica do dentista. Na seguradora.
Ser descartável para quem amava e para quem odiava.
Não, ela sabia que não conseguiria ser como os outros. Ser como aqueles cidadãos e seus impostos; e suas carreiras e famílias.Não havia espaço para ela naquele mundo.
Para aquela mulher só havia números e desprezo. Ela era insignificante para os outros e para si.
Chegou a conclusão de que se odiava cada vez mais. Odiava-se por ser racional e poder pensar. Odiava-se por ter nascido. Tinha certeza de que a mãe deveria ter feito um aborto, e não ter morrido na hora do parto.
“Ela fez a escolha errada. Mas eu, eu farei a certa”.
Correu para a rua agitada e concretizada em preto e branco. Jogou-se quando o verde abriu, e ainda pôde ouvir os gritos antes do vermelho silencioso e do vermelho letal.
Ela não nascera no lugar certo, sempre soubera.
Ali nunca caberia tanta filosofia, de certo.
| Autor(a): J. Lane Temas: Felicidade, Humanidade, Vida Tipo: Estória | |
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Comentários
Marcus Alberto Ribeiro Macedo @ 23/11/2007 14:50:14
putz sem palavras
eu até chorei
parabens mesmo.
Minha Redatora.
putz sem palavras
eu até chorei
parabens mesmo.
Minha Redatora.



