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Sinto cheiro de Jasmim e Rosas

Certa vez amei por uma tarde. São os melhores amores que existem: rápidos, intensos e não deixam decepção. Neste dia, agradeci fervorosamente aos problemas dos atendimentos bancários.
Sim, foi no banco. Na época eu trabalhava numa loja, e naquele dia fui encarregada de pagar as duplicatas. Saí aliviada, pois preferia passar uma tarde no banco a ficar atendendo pessoas que não me ouviam e sorrindo para pessoas que não me olhavam.
E, como qualquer conversa num banco, esta começou falando mal do atendimento; da fila, que nunca andava; das cadeiras que eram poucas. Ele chegou, pequeno, atrás de mim, com um sorriso tão grande que parecia não falar de problemas, e sim de soluções.
No início eu respondia, apenas, virada com as costas pra ele. Mas á medida em que a conversa fluía, meu corpo se virava, como uma espécie de bailarina de caixa musical. Quando me vi, já estava de frente para ele, contrariando a lógica da fila.
E conversamos. Sobre tudo o que pudéssemos imaginar naquela hora, pois não queríamos perder o contato. Política, religião, leis... Tudo aquilo que não queríamos conversar, mas sustentávamos como advogados, pois se eu me virasse, ele não teria coragem de iniciar outra conversa. Tampouco eu.
A tarde passava, nós conversávamos e a fila andava. Eu olhava para o início da fila, perto dos guichês, pensando exatamente onde iria acabar aquele contato mágico.
E foi justamente assim. Eu fui atendida primeiro, mas demorei para completar os pagamentos. Ele veio até mim, se despediu, disse que foi um prazer. E se foi.
No entanto, ao contrário do que eu esperava, não me senti angustiada com esse fim. Sabia que tudo o que era para ter vivido com ele era isso. O papel dele, desde quando nasceu, estava definido: agradar-me naquela tarde.
Ao sair do banco, senti o calor exagerado da rua. Caminhei serenamente, a fim de retardar ao máximo minha chegada na loja.
Foi quando o vi de novo. Caminhava rápido, e quase não o percebi. Devia estar resolvendo algo, pois aquelas ruas eram o centro dos bancos, lojas e outras instituições.
Ele me parou. Agradeceu novamente, pegou minha mão e disse seu nome, depois de colocar, suavemente, um beijo em minha face: João. Simples, assim. Eu lhe disse meu nome, e nos separamos mais uma vez.
E fomos viver as nossas vidas, por que nosso dia já tinha passado. E eu pensei que não o veria mais.
E o tempo passou; não sei exatamente quanto, mas sei que foi muito. E um dia, com a loja cheia de clientes, eu vi seu rosto. E pensei: “Meu Deus, por que me faz isso agora?”.
Ele não me viu. Estava com a mulher e a filha. Não pude me aproximar, pois estava atendendo dois clientes de uma só vez. Acompanhei cada passo dele com os olhos, até o momento em que saiu.
E no fim do dia, ao ir de ônibus pra casa, fiquei imaginando se foi uma coincidência ou se existia mesmo um deus providente, que colocou aquele homem de novo na minha frente para que eu me lembrasse que existe amor?
Não ando mais por aquelas ruas. É difícil explicar o que se sente quando se ama tão rápido. Não há aquela angústia de encontrá-lo; tampouco o frio na barriga ao atender o telefone; nem o medo de perder. Eu apenas respiro, e me sinto completa.

Primeiro de Junho de Dois Mil e Sete


Autor(a): Janara Laíza de Almeida Soares
Temas: Vida, Felicidade, Amor
Tipo: Crônica
Avaliação:
 

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