Paulo Freire
O MÉTODO PAULO FREIRE
O "Método Paulo Freire" é ainda muito utilizado, com algumas adaptações, nos dias de hoje em todo o mundo, e quase sempre ao falar-se de Freire e alfabetização, a compreensão desta é reduzida a puro conjunto de técnicas ligadas à aprendizagem da leitura e da escrita. É preciso deixar este ponto mais claro para, sobretudo, quem se inicia em Freire.
O "convite" de Freire ao alfabetizando adulto é, inicialmente, para que ele se veja enquanto homem ou mulher vivendo e produzindo em determinada sociedade, Convida o analfabeto a sair da apatia e do conformismo de "demitido da vida" em que quase sempre se encontra e desafia-o a compreender que ele próprio é também um fazedor de cultura, fazendo-o apreender o conceito antropológico de cultura. O "ser menos" das camadas populares é trabalhado para não ser entendido como desígnio divino ou sina, mas como determinação do contexto económico - político - ideológico da sociedade em que vivem.
Quando o homem e a mulher se percebem como fazedores de cultura, está vencido, ou quase vencido, o primeiro passo para sentirem a importância, a necessidade e a possibilidade de se apropriarem da leitura e da escrita. Estão-se alfabetizando, politicamente falando.
Os participantes do "círculo de cultura", em diálogo sobre o objecto a ser conhecido e sobre a representação da realidade a ser descodificada, respondem às questões provocadas pelo coordenador do grupo, aprofundando suas leituras do mundo. O debate que surge daí possibilita uma Segunda leitura da realidade de que pode resultar o engajamento do alfabetizando em práticas políticas com vista à transformação da sociedade.
O quê? Por quê? Como? Para quê? Por quem? Contra quem? A favor de quem? A favor de quê? - são perguntas que provocamos alfabetizandos em torno da substantividade das coisas, da razão de ser delas, das suas finalidades, do modo como se fazem, etc..
As actividades de alfabetização exigem a pesquisa do que Freire chama "universo vocabular mínimo" entre os alfabetizandos. É trabalhando este universo que se escolhem as palavras que farão parte do programa. Estas palavras, mais ou menos dezassete, chamadas "palavras geradoras", devem ser palavras de grande riqueza fonémica e colocadas, necessariamente, em ordem crescente das menores para as de maiores dificuldades fonémicas, lidas dentro do contexto mais amplo da vida dos alfabetizandos e da língua local, que por isso mesmo é também nacional.
A descodificação da palavra escrita, que vem em seguida à descodificação da situação existencial codificada, compreende alguns passos que devem, rigorosamente se suceder.
Tomemos a palavra TIJOLO, usada como a primeira palavra em Brasília, nos anos 60, escolhida por ser uma cidade em construção, para facilitar o entendimento do (a) leitor (a).
1° Apresenta-se a palavra geradora "tijolo" inserida na representação de uma situação concreta: homens trabalhando numa construção.
2° Escreve-se simplesmente a palavra
TIJOLO
3° Escreve-se a palavra com as sílabas separadas
TI - JO - LO
4° Apresenta-se a família fonémica da primeira sílaba:
TA-TE-TI-TO-TU
5° Apresenta-se a família fonémica da segunda sílaba:
JÁ -JE-JI-JO-JU
6° Apresenta-se a família fonémica da terceira sílaba:
LA-LE-LI-LO-LU
7° Apresentam-se as Famílias fonémicas da palavra que está sendo descodificada:
TA - TE - TI - TO - TU
JÁ-JE-JI-JO-JU
LA-LE-LI-LO-LU
Este conjunto das famílias fonémicas da palavra geradora foi denominada de "ficha de descoberta" pois ela propicia ao alfabetizando juntar os "pedaços", isto é, fazer dessas sílabas novas combinações fonémicas que necessariamente devem formar palavras da língua portuguesa.
8° Apresentam-se as vogais:
A - E - I - O - U
Em síntese, no momento em que o (a) alfabetizando (a) consegue, articulando as sílabas, formar palavras, ele ou ela, está alfabetizado (a). O processo requer, evidentemente, aprofundamento, ou seja, a pós-alfabetização.
A eficácia e validade do "Método" consistem em partir da realidade do alfabetizando, do que ele já conhece, do valor pragmático das coisas e factos de sua vida quotidiana, de suas situações existenciais. Respeitando o senso comum e deles partindo, Freire propõe a sua superação.
O "método" obedece às normas metodológicas e linguísticas, mas vai além delas, porque desafia o homem e a mulher que se alfabetizam a se apropriarem do código escrito e a se politizarem, tendo uma visão de totalidade da linguagem e do mundo.
O "método" nega a mera repetição alienada e alienante de frases, palavras e sílabas, ao propor aos alfabetizandos "ler o mundo" e "ler a palavra", leituras, aliás, como enfatiza Freire, indissociáveis.
Daí ter vindo a posicionar-se contra as cartilhas.
Em suma, o trabalho de Paulo Freire é mais do que um método que alfabetiza, é uma ampla e profunda compreensão da educação que tem como cerne de suas preocupações a sua natureza política.
Concluiria esta abordagem sobre o "Método Paulo Freire" dizendo que a alfabetização do povo brasileiro - porque quando o criou jamais pensava que ele se expandiria pelo mundo - era então, no bom sentido da palavra uma táctica educativa para atingir a estratégia necessária: a politização do povo brasileiro. Nesse sentido, é revolucionário porque ele pode tirar da situação de submissão, de imersão e de passividade aqueles e aquelas que ainda não conhecem a palavra escrita. A revolução pensada por Freire não pressupõe uma inversão nos pólos oprimido-opressor, antes, pretende re-inventar, em comunhão, uma sociedade onde não haja a exploração e a verticalidade do mando, onde não haja a exclusão ou interdição da leitura do mundo aos segmentos não privilegiados da sociedade.
Paulo Freire esteve no exílio por quase dezasseis anos, exactamente porque compreendeu a educação desta maneira e lutou para que um grande número de brasileiros e brasileiras tivesse acesso a esse bem a eles negado secularmente: o acto de ler a palavra lendo o mundo.
| Autor(a): kio kusanagui Temas: Sociedade, Tempo Tipo: Crônica | |
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