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O Menino do Dedo Quebrado

Raiou o dia no sertão nordestino. Mais um dia com aquele sol radiante, rachando as poucas mamonas que ainda havia.

Logo às seis da manhã, Tarcísio, um garoto de quinze anos de idade acordava para mais um dia de trabalho.

Morando num casebre à beira do riacho, a família de Tarcísio sofria financeiramente. Seu pai, atualmente, trabalhava como pedreiro em uma casa que estava em construção. Sua mãe cuidava da casa e dos outros sete filhos. Para ajudar a família, Tarcísio tinha que trabalhar arduamente durante o dia. E, para garantir um futuro melhor, estudar durante a noite.

Tarcísio levanta-se e, como não há água corrente em sua casa, vai banhar-se no riacho. Após o banho, ainda sem tomar café da manhã, Tarcísio põe uma roupa mais ou menos limpa e sai, debaixo de sol ardendo, e descalço, sobre a terra que parecia estar em chamas, e segue seu caminho rumo à companhia de reciclagem.

No meio do caminho, Tarcísio sonhava em como seria ser astronauta, pois queria muito exercer essa profissão. Conseqüentemente, tropeça numa pedra e cai. A queda faz com que Tarcísio quebre um dos dedos de sua mão. Pensando nas necessidades que sua família passava, Tarcísio foi forte; tentou segurar o choro e ignorar a dor, falando para si mesmo:

-Muitos garotos choram por lascar uma unha, mas, mesmo com meu dedo quebrado, seguirei em frente.

E seguiu seu caminho. Ao chegar à companhia, levou uma tremenda bronca de seu chefe por ter-se atrasado cinco minutos.

-Atrasado mais uma vez... Mais um atraso e serei obrigado a te dispensar. Ah, e os cinco minutos serão descontados.
Tarcísio sofria como um vira-lata naquela companhia. Todos os dias, ele era obrigado a amassar latas de alumínio, muitas vezes se cortando, com feridas difíceis de serem cicatrizadas.

Após o trabalho, com a mesma roupa e ainda sem almoço, ele vai direto à escola, correndo para não perder a hora. A essa altura do dia, Tarcísio nem sentia mais seu dedo quebrado.

Na aula, Tarcísio se esforçava para ser um bom aluno, mas parecia que seus professores não entendiam o que ele passava quando não tinha tempo de fazer a lição de casa.

-Mais uma vez sem cumprir com seu dever... Você ainda acredita que um burro feito você pode passar de ano? Se eu estivesse no seu lugar, ficaria em casa.

Mas Tarcísio se esforçava mais a cada crítica e utilizava do recreio para cumprir as atividades propostas.

Já de noite, quase de madrugada, Tarcísio chega a sua casa, com o estômago vazio. Na mesa havia apenas um pão velho, já duro, e um restinho de água na moringa.

Tentando matar a fome, sonhava com seu futuro. Imaginava-se astronauta, para conhecer todo o universo, mas sabia que trabalhando naquela companhia e estudando naquela escola, jamais poderia realizar seu sonho. E pegou no sono.

No dia seguinte, foi a mesma coisa: acorda cedo, toma banho no lago, vai para o trabalho, leva bronca, vai para a escola e leva outra bronca. O jovem não agüentava mais aquela vida dura, ainda mais agora com o dedo cada dia mais inchado. Mesmo assim, foi fiel à família e continuou com sua rotina.

Após meses de trabalho forçado e dormindo cada dia menos, acabou adoecendo. Com as defesas do corpo enfraquecidas por falta de comida, Tarcísio veio a falecer.

E então, no dia do velório, somente após sua morte, seus pais puderam perceber que seu dedo estava quebrado.


Autor(a): JP Hergesel
Temas: Sociedade
Tipo: Crônica
Avaliação:
 

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