Ele está viajando, Bia Fernandes
Era uma família praticamente normal: o pai, 50 anos já com cabelos grisalhos, acordava cedo, de segunda a sábado, para trabalhar; a mãe, 40 anos e bem conservada, cuidava da casa e de sua estimada cadelinha; e o filho, 16 anos – um verdadeiro homem –, estudava boa parte do dia e, no tempo restante, trancava-se no quarto e escrevia estórias de todos os tipos, embora preferisse os romances. Em fim, a família que todo mundo gostaria de ter.
Certa quarta-feira do mês de julho, o pai recebe a notícia de que precisaria ir aos Estados Unidos para resolver assuntos de interesse financeiro da empresa em que trabalhava. Viajou, deixando a mulher e o filho sozinhos.
Já era noite quando o filho fora para seu quarto e a mãe deitara sozinha na cama de casal. Alguns minutos e os dois pegaram no sono.
A madrugada chegava e, no silêncio profundo, onde não se ouvia nem o canto das cigarras, uma voz feminina, parecida com aquela de moça de aeroporto, começava a soar, do nada, bem lenta e baixinha. Era uma voz até que relaxante que dizia repetidamente “Ele está viajando, Bia Fernandes”. Aos poucos, o tom começou a subir e a dona da voz parecia estar se aproximando cada vez mais. A calma e a tranqüilidade estavam transformando-se em susto.
A voz ia ficando cada vez mais alta e acabou acordando o filho, que, muito assustado, entrou correndo no quarto da mãe. Ela estava sentada na cama, agarrada a um travesseiro. E a voz ia ficando mais alta, e mais alta, e mais alta. Quando a voz estava completamente horripilante, alta a ponto de estourar os tímpanos, a cachorra no quintal solta um uivo ainda mais estridente, rompendo a barreira do som. Misteriosamente, o barulho todo se revertera em silêncio.
Mesmo percebendo que aquilo tudo só poderia ter sido alucinação dos dois, o filho resolve dormir junto à mãe. Para acalmar os ânimos, a mãe liga o aparelho de som e coloca um CD com músicas bem gostosas aos ouvidos. A música começa a tocar normalmente. Um pouco depois da metade, ela para. Ambos olham para o rádio, pensando ser problema do aparelho. A mesma voz misteriosa sai da caixa de som. “Ele está viajando, Bia Fernandes” – era a única coisa que a voz falava.
A mãe passa para a próxima música. A música começa a tocar normal, mas nem chega à metade e a voz volta. A cada faixa pulada, a música tocava cada vez menos e a voz repetia-se cada vez mais. Quando chegou à última faixa, só se ouvia “Ele está viajando, Bia Fernandes”.
A mãe pressionou o stop, desligou o aparelho, puxou da tomada. Dessa vez a voz não sumiu, porém não aumentou nem diminuiu. Manteve-se estável.
Tentando ignorar a voz, mãe e filho tentavam dormir. Quando o sono estava chegando, um barulho o espantou. Era um som de chave abrindo uma porta. Parecia que alguém estava entrando na casa. Já não estavam mais assustados. Agora estavam medrosos.
Entraram para debaixo das cobertas, mas um vento forte passou pelo quarto. Respirando fundo e tomando coragem, resolveram sair do quarto. Viram então, pela porta de vidro que separava a sala do corredor, que a porta da entrada principal estava totalmente aberta, o que gerava a corrente de ar.
A voz continuava.
O vento começou a se transformar em furacão, arrastando os móveis da casa. Mãe e filho se abraçaram, se segurando para não serem levados. Uma árvore vem da rua, entra pela porta que se encontrava aberta e bate na porta de vidro, quebrando-a, fazendo com que caquinhos voassem por todos os lados.
A voz aumentava.
A energia da casa estava oscilada. As luzes começaram a piscar. Os dois mesmo assim foram à sala. Lá, uma velha com cabelos compridos e brancos amarrados com um laço vermelho, baixinha e não muito gorda, estava com um microfone em suas mãos, dizendo “Ele está viajando, Bia Fernandes”.
Em meio à desordem total, a mãe vê um carro entrando pela janela e vindo em sua direção. Fecha os olhos e dá um grito de pânico. Assim que os olhos são abertos, não há mais árvore, nem vento, nem caco, nem velha, nem voz. A casa estava completamente intacta. O silêncio pairava no ar.
O telefone tocou. Temiam que pudessem escutar aquela voz assustadora ao atendê-lo. O filho quis atender. A mãe o impediu. Foi ela.
-Alô!
-Oi querida...
A mulher respirava aliviada.
-E aí, meu bem, como foi a viagem?
-Muito bem. Está certo que quase me perdi. Assim que desci do avião, passei por um corredor deserto do aeroporto. Quando cheguei ao outro lado, uma das faxineiras me contou uma história absurda. Ela disse que, há uns 40 anos, uma das telefonistas tinha uma salinha escura, cuja entrada ficava em meio ao corredor. Seu nome era Beatriz e todas as ligações de pessoas que procuravam outras pessoas eram transferidas para essa pobre moça e sua função era pegar o telefone e dizer “Ele está viajando, Bia Fernandes”, independente de onde a pessoa procurada estava. E, segundo a lenda do aeroporto, certo dia ela passara a noite trabalhando e gastando sua saliva. Quando iniciara o dia, ela caíra no sono. Os pedreiros que faziam uma reforma, sem saber que ela estava dentro da sala, acabaram trancando a porta com tijolos. Desde então, dizem que todo aquele que passa por sua porta, ou seja, passa pelo corredor, recebe a visita de seu espírito, que tormenta toda a família por uma noite inteira e só vai embora quando os relógios marcam seis da manhã.
-Nossa, querido, cada história absurda que esse povo conta, não?
E o pai nunca soube o que a mulher e o filho passaram naquela noite.
Certa quarta-feira do mês de julho, o pai recebe a notícia de que precisaria ir aos Estados Unidos para resolver assuntos de interesse financeiro da empresa em que trabalhava. Viajou, deixando a mulher e o filho sozinhos.
Já era noite quando o filho fora para seu quarto e a mãe deitara sozinha na cama de casal. Alguns minutos e os dois pegaram no sono.
A madrugada chegava e, no silêncio profundo, onde não se ouvia nem o canto das cigarras, uma voz feminina, parecida com aquela de moça de aeroporto, começava a soar, do nada, bem lenta e baixinha. Era uma voz até que relaxante que dizia repetidamente “Ele está viajando, Bia Fernandes”. Aos poucos, o tom começou a subir e a dona da voz parecia estar se aproximando cada vez mais. A calma e a tranqüilidade estavam transformando-se em susto.
A voz ia ficando cada vez mais alta e acabou acordando o filho, que, muito assustado, entrou correndo no quarto da mãe. Ela estava sentada na cama, agarrada a um travesseiro. E a voz ia ficando mais alta, e mais alta, e mais alta. Quando a voz estava completamente horripilante, alta a ponto de estourar os tímpanos, a cachorra no quintal solta um uivo ainda mais estridente, rompendo a barreira do som. Misteriosamente, o barulho todo se revertera em silêncio.
Mesmo percebendo que aquilo tudo só poderia ter sido alucinação dos dois, o filho resolve dormir junto à mãe. Para acalmar os ânimos, a mãe liga o aparelho de som e coloca um CD com músicas bem gostosas aos ouvidos. A música começa a tocar normalmente. Um pouco depois da metade, ela para. Ambos olham para o rádio, pensando ser problema do aparelho. A mesma voz misteriosa sai da caixa de som. “Ele está viajando, Bia Fernandes” – era a única coisa que a voz falava.
A mãe passa para a próxima música. A música começa a tocar normal, mas nem chega à metade e a voz volta. A cada faixa pulada, a música tocava cada vez menos e a voz repetia-se cada vez mais. Quando chegou à última faixa, só se ouvia “Ele está viajando, Bia Fernandes”.
A mãe pressionou o stop, desligou o aparelho, puxou da tomada. Dessa vez a voz não sumiu, porém não aumentou nem diminuiu. Manteve-se estável.
Tentando ignorar a voz, mãe e filho tentavam dormir. Quando o sono estava chegando, um barulho o espantou. Era um som de chave abrindo uma porta. Parecia que alguém estava entrando na casa. Já não estavam mais assustados. Agora estavam medrosos.
Entraram para debaixo das cobertas, mas um vento forte passou pelo quarto. Respirando fundo e tomando coragem, resolveram sair do quarto. Viram então, pela porta de vidro que separava a sala do corredor, que a porta da entrada principal estava totalmente aberta, o que gerava a corrente de ar.
A voz continuava.
O vento começou a se transformar em furacão, arrastando os móveis da casa. Mãe e filho se abraçaram, se segurando para não serem levados. Uma árvore vem da rua, entra pela porta que se encontrava aberta e bate na porta de vidro, quebrando-a, fazendo com que caquinhos voassem por todos os lados.
A voz aumentava.
A energia da casa estava oscilada. As luzes começaram a piscar. Os dois mesmo assim foram à sala. Lá, uma velha com cabelos compridos e brancos amarrados com um laço vermelho, baixinha e não muito gorda, estava com um microfone em suas mãos, dizendo “Ele está viajando, Bia Fernandes”.
Em meio à desordem total, a mãe vê um carro entrando pela janela e vindo em sua direção. Fecha os olhos e dá um grito de pânico. Assim que os olhos são abertos, não há mais árvore, nem vento, nem caco, nem velha, nem voz. A casa estava completamente intacta. O silêncio pairava no ar.
O telefone tocou. Temiam que pudessem escutar aquela voz assustadora ao atendê-lo. O filho quis atender. A mãe o impediu. Foi ela.
-Alô!
-Oi querida...
A mulher respirava aliviada.
-E aí, meu bem, como foi a viagem?
-Muito bem. Está certo que quase me perdi. Assim que desci do avião, passei por um corredor deserto do aeroporto. Quando cheguei ao outro lado, uma das faxineiras me contou uma história absurda. Ela disse que, há uns 40 anos, uma das telefonistas tinha uma salinha escura, cuja entrada ficava em meio ao corredor. Seu nome era Beatriz e todas as ligações de pessoas que procuravam outras pessoas eram transferidas para essa pobre moça e sua função era pegar o telefone e dizer “Ele está viajando, Bia Fernandes”, independente de onde a pessoa procurada estava. E, segundo a lenda do aeroporto, certo dia ela passara a noite trabalhando e gastando sua saliva. Quando iniciara o dia, ela caíra no sono. Os pedreiros que faziam uma reforma, sem saber que ela estava dentro da sala, acabaram trancando a porta com tijolos. Desde então, dizem que todo aquele que passa por sua porta, ou seja, passa pelo corredor, recebe a visita de seu espírito, que tormenta toda a família por uma noite inteira e só vai embora quando os relógios marcam seis da manhã.
-Nossa, querido, cada história absurda que esse povo conta, não?
E o pai nunca soube o que a mulher e o filho passaram naquela noite.
| Autor(a): JP Hergesel Temas: Sociedade Tipo: Crônica | |
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