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Saudade do que não vivi

Tenho saudades dos bailes antigos e seus ares de eternidade, embora nunca tenha freqüentado ao menos um. Saudade das músicas que nunca ouvi, das mãos que nunca toquei e dos lábios rebeldes que nunca beijei. Também tenho saudades do cinema lotado, onde todos aplaudiam os filmes do Paul Newman e seu ar de durão que era invejado por todos.
De todas as músicas que nunca dancei, dos bailes que nunca freqüentei, dos filmes do Paul Newman e dos lábios rebeldes que nunca beijei. De tudo isso, sinto mais saudades das noites de namoro sob o olhar atento da megera mãe da Glórinha. Até hoje me pergunto como ela conseguia costurar com os olhos fixos em nós dois. O pior de tudo era aturar o peste do Plínio, o irmão mais novo da Glória.
Mas aquela velha megera e implicante também não existiu, nem seu filho caçula que me custou minha vergonhosa mesada e algumas revistas dos Beatles. E a minha Glórinha – a minha amada Glórinha, com seus olhos cor de mel e que em meus sonhos era minha linda esposa - ela também não existiu, embora algo em mim diz que realmente vivi aquele amor.

Hoje, no auge dos meus 22 anos, busco compreender a magia existente nos momentos de saudade. Fico a observar no cinema vazio do meu coração as imagens de uma época que, para mim, não tem cheiro e nem sabor, mas apenas um desejo esquizofrênico de regressar muitos anos. Talvez a saudade seja uma ponte sem começo e fim, onde fico a observar as águas do tempo correrem lá em baixo.

Hoje, no auge e encanto do meu presente, verbalizo as águas cristalinas de minha estranha saudade.


Por Nido Ramos.


Autor(a): Nido.
Temas: Vida, Juventude, Amor
Tipo: Conto
Avaliação:
 

Comentários

Jaqueline @ 03/12/2008 19:01:05
Adorei, muito bem criado..
Parabéns!

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