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A Plantação de Doces

Serena era uma mulher que gostava muito de doces. Desde criança ela sempre foi adepta ao açúcar.

Quando tinha apenas duas semanas de vida, sua mãe e a deixara dentro do carrinho de bebê, próximo à mesa da sala. Sobre a mesa, bem no centro, havia uma bomboniere – um recipiente para guardar doces em geral: bombons, pirulitos, chicles, principalmente balas. Sua mãe sempre colocava balas para que as visitas pudessem levar algumas balinhas antes de ir embora. Isso mostrava que ela era uma boa recepcionista.

Por mais impressionante que pareça, ainda bebê e sem saber nada sobre a vida, Serena pôde perceber que aquilo era gostoso e, não tendo como se levantar do carrinho, pegar uma bala, tirar do papelzinho e chupá-la, ela tentou se esticar o máximo possível, até conseguir agarrar a toalha da mesa. Apoiando na toalha, ela conseguiu sentar-se no carrinho. Com um pouco mais de esforço, ela conseguiu e agarrar na mesa e, aí foi fácil para ela subir. Mas antes que ela pudesse pegar uma bala, sua mãe a viu, quase teve um treco.

Mais tarde, aos sete meses, Serena aprendera a engatinhar. Sua mãe deixava que ela engatinhasse por toda casa, uma vez que não havia nada de perigoso próximo ao chão. Serena adorava andar de quatro. Ia par a cozinha, ia para a sala, ia para o quarto, voltava para a sala. Até ela sentir um cheiro de açúcar queimado e perceber que a vizinha estava fazendo pudim caramelado.

Com a ajuda de uma vassoura, ela conseguiu abrir a porta da sala, que estava destrancada, pelo motivo de seu pai já estar quase chegando do trabalho. Ela, então, vai para a área. De lá ela observa o movimento da rua. Desce, com muito cuidado, as escadas – três ou quatro pequenos degraus –, engatinha até o portão e consegue passar por entre as frestas. Seguiu em direção à casa da vizinha, mas teve seu caminho interrompido por seu pai que, pegando-a no colo, quase teve um treco.

Alguns anos depois, ela estava na casa de sua avó. Olhando pela janela, ela vê o caminhão de lixo passar e deixar cair um saco com lixo no chão. Ainda olhando, vê um gato revirando o lixo e pegando um pedaço de bolo com a boca. Ela continua observando e vê que o gato sobe no telhado da casa de sua avó. Sem pensar duas vezes, ela sai da casa e, dando uma de homem-aranha, tenta subir no telhado, se apoiando no cano da calha.

Quando já estava quase chegando perto do telhado, o gato dá um salto e cai em pé, no jardim. Serena tenta fazer igual e se joga daquela altura. Para sua sorte, sua avó tinha saído para saber quem é que abrira a porta e Serena caiu bem em seus braços. Foi a última emoção que a pobre velhinha viveu.

Ao mudar para Prateado – onde mora atualmente –, Serena descobrira que uma das vizinhas fazia suspiros para vender. Logo no primeiro dia que se mudou, já foi comprar um pacotinho. Eram realmente deliciosos. Não se conseguia comer um só.

Serena se viciou naquilo. Ela comprava um pacotinho todos os dias; não importa se estava sol ou se chovia, ela estava na porta de sua vizinha no mesmo horário de sempre e dona Francisca já sabia disso.

Infelizmente, para Serena, hoje ela teria uma notícia desagradável. No mesmo horário dos outros dias, ela foi à casa de Francisca. Dessa vez quem atendera fora a empregada. Serena disse que havia ido comprar um pacotinho de suspiros e a empregada lhe entregou o último.

-Você deu sorte. Esse é o ultimo. Ainda mais que amanhã mesmo a dona Francisca vai se mudar.

Serena não podia acreditar que ficaria sem seu doce preferido. Tentando pensar num jeito de fazer com que os suspiros não saíssem de perto dela, Serena começou a relembrar do dia que passou no sítio de seu tio. Ele ensinara a ela naquele dia que para ter mexericas, laranjas, maçãs, era necessário plantar uma semente. Serena não teve mais dúvidas do que fazer. Pegou a pá, abriu um buraco em seu jardim e plantou lá, o saquinho de suspiros.

Definitivamente, quando o assunto é doce, Serena é uma formiga.


Autor(a): JP Hergesel
Temas: Sociedade
Tipo: Conto
Avaliação:
 

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