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A Cara-de-pau

Um exemplo de agitação é o caradurismo. E isso Gabriela, embora não aparente no trabalho, tem de sobra na vida social. Ninguém sabe melhor disso do que Cristina, sua chefe, que passaria uma semana com ela por motivos particulares. E a cada dia da semana, se surpreendia cada vez mais com sua secretária.

Logo no primeiro dia, assim que elas saíram do trabalho, Gabriela levou Cristina para um bar noturno. Birita vai, birita vem, e, em menos do que se pudesse imaginar, Gabriela estava bêbada. Começou, então a seduzir o barman. Depois, ainda descontente, pediu (de sobremesa) um pote de doce de leite. Comera tudo. Após isso, ainda tinha disposição para dançar. Subiu no balcão e começou a rodopiar. Não demorou muito até que seu estômago começasse a se embrulhar. Cristina fora a vítima.

No dia seguinte, foram ao banco. A fila estava imensa, mas Gabriela não pretendia ficar na fila. Pensando nisso, ficou na porta do banco esperando que uma criança passasse na calçada. Não precisou esperar muito e um menino de 10 anos descia a rua. Ela logo parou o menino e perguntou se ele queria ganhar um pirulito. Quando Cristina percebeu, Gabriela estava com o garoto no colo e, furando a fila de umas trinta pessoas, foi ao caixa preferencial.

Cristina achou que aquilo era o máximo que Gabriela poderia fazer. Estava enganada. Noutro dia, quando foram ao supermercado, além de disfarçar-se se idosa e passar na frente, ao chegar na hora de pagar, Gabriela não tinha dinheiro suficiente e, fazendo com que a caixa do mercado pensasse que uma nota de cinco fosse uma de dez, deixou o dinheiro e saiu, deixando Cristina carregando as sacolas e mais sacolas de compra.

No quarto dia juntas, Gabriela teria que buscar seu carro, que estava no conserto. Ao chegar à oficina mecânica, seu carro estava a sua espera; e o mecânico também. Quando o mecânico disse o valor do trabalho, Gabriela pediu para testar o carro antes, pois queria ter certeza de que o trabalho havia sido bem feito. Ao ligar o carro, deu partida e saiu em alta velocidade, sem pagar a conta.

No dia seguinte, ambas foram a psicanalista, porque Gabriela havia sido intimada pela justiça, após quebrar um vidro onde morava uma cobra, no zoológico, a comparecer em pelo menos 15 consultas. O psicanalista começou a perguntar e Gabriela a responder. Cristina estava achando aquilo tão chato que acabou pegando no sono. Quando acordou, Gabriela era quem estava ouvindo o problema do doutor.

No sexto dia, elas foram ao cinema. Cristina não se preocupou em levar dinheiro porque Gabriela disse que pagaria as entradas, a pipoca e o refrigerante. Gabriela não havia levado um tostão sequer Usou um método diferente, e muito eficaz, para entrar no cinema. Chegou bem próximo ao bilheteiro e pediu para que ele o acompanhasse até uma ala escondida. Então, ela abriu a camisa e mostrou seus seios a ela. As duas assistiram o filme na melhor fileira de poltronas.

E hoje, sétimo dia, elas resolveram ir ao shopping center. Estavam andando pelos corredores e tomando sorvete, quando passando próximo aos sanitários, Cristina perguntou algo, que depois se arrependeu:

-Você nunca teve curiosidade de saber como é o banheiro dos homens?

Gabriela gostou tanto da idéia que, arrastando Cristina pelos braços, foi colocá-la em prática. Não demorou muito e os seguranças as punham para fora do shopping, sob protesto de Gabriela:

-Me soltem! Eu ainda não fui no bate-bate.


Autor(a): JP Hergesel
Temas: Sociedade
Tipo: Conto
Avaliação:
 

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