Conto Noturno
Sua silhueta e os traços do seu rosto, de início, pareciam-me normais. Mãos largas e fortes pendiam de seu braço, incrivelmente lindo e definido. Pernas torneadas permitiam-se ver embaixo do sobretudo. Uma figura realmente singular.
Ao sentar-se ao meu lado, numa parte mais escura do cais, percebi seu olhar. Ah! Seu olhar... nem silhueta nem rosto, nem mãos, braços ou pernas chegariam a tal magnitude. Um olhar amarelo, perdido nas sombras que dançavam produzidas pelas velas nas portas das janelas. Era dia de Nossa Senhora das Candeias.
Aquele ser, parecido ter saído de contos noturnos, da mais mórbida literatura, percorreu seu entorno com o olhar amarelo, feito gato á espreita, até dar-se com os meus olhos. Não sei o que ele sentiu, tampouco sei descrever o que eu senti. Não sei se o arrepio foi provocado pelo vento suave que beijava meus cabelos, ou por aqueles olhos, que açoitavam os meus.
Não, não sei descrever. Talvez tenha até dormido, quem sabe entrado em transe. Quando dei por mim, vi apenas uma sombra negra andando calmamente pelo cais, como se o vento não lhe soprasse culpas; como se os morcegos fossem apenas animais; como se a vida fosse apenas risos.
Vi-me no chão, forte o bastante para mover a mão em direção á sombra. Ela virou, com todos os seus cabelos, com todos os seus gestos, e branco como a lua que habitava um céu acima de nós, passou a mão em um filete vermelho que escorria da boca, contrastando com sua brancura. Aquela boca vermelha moveu-se devagar, quase como num canto gregoriano, e sua voz soou baixa: Nos encontraremos novamente...
Depois... depois, apenas o nada.
Ao sentar-se ao meu lado, numa parte mais escura do cais, percebi seu olhar. Ah! Seu olhar... nem silhueta nem rosto, nem mãos, braços ou pernas chegariam a tal magnitude. Um olhar amarelo, perdido nas sombras que dançavam produzidas pelas velas nas portas das janelas. Era dia de Nossa Senhora das Candeias.
Aquele ser, parecido ter saído de contos noturnos, da mais mórbida literatura, percorreu seu entorno com o olhar amarelo, feito gato á espreita, até dar-se com os meus olhos. Não sei o que ele sentiu, tampouco sei descrever o que eu senti. Não sei se o arrepio foi provocado pelo vento suave que beijava meus cabelos, ou por aqueles olhos, que açoitavam os meus.
Não, não sei descrever. Talvez tenha até dormido, quem sabe entrado em transe. Quando dei por mim, vi apenas uma sombra negra andando calmamente pelo cais, como se o vento não lhe soprasse culpas; como se os morcegos fossem apenas animais; como se a vida fosse apenas risos.
Vi-me no chão, forte o bastante para mover a mão em direção á sombra. Ela virou, com todos os seus cabelos, com todos os seus gestos, e branco como a lua que habitava um céu acima de nós, passou a mão em um filete vermelho que escorria da boca, contrastando com sua brancura. Aquela boca vermelha moveu-se devagar, quase como num canto gregoriano, e sua voz soou baixa: Nos encontraremos novamente...
Depois... depois, apenas o nada.
| Autor(a): Janara Laíza de Almeida Soares Temas: Natureza Tipo: Conto | |
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