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Em algum lugar do mundo

Já passou do meio dia e não sei o que comer. Prá falar a verdade, nem me lembro o que comi ontem. Não sinto a lembrança da comida em meu estômago.
Papai morreu mêses atrás. Foi quando conheci a morte,aos 5 anos. Nem nos deixaram ver o corpo. Dizem que ele pisou numa bomba que estava enterrada no chão. Meu tio teve mais sorte, se é que posso chamar assim, apenas perdeu uma das pernas.
Minha mãe está em casa.
Meu irmão mais novo não sai do colo dela. Com afago, abocanha seus mamilos quase sem vida, na esperança de encontrar uma gota de leite. Mas não há um único vestígio de leite.
Quando era mais novo, fazia o mesmo e sem sucesso. Mas naquela época, tinhamos o papai. Ele saia ainda escuro e só voltava tardezinha, trazendo consigo algumas gramas de feijão e farinha, o suficiente para fingirmos um banquete.

Sai de casa pouco depois de acordar.
Meu irmão chorava, e minha mãe nem tentava fazer mais nada a não ser escutá-lo. Apenas água, suja e sem brilho, era o que ela podia dar.

Estou aqui sentado agora.
Mão no rosto pensando.
Pensando em que?
Não sei!
Apenas penso, pensar engana a fome.
Se tivesse forças, poderia ir até o centro de ajuda, onde alguns alimentos são distribuídos, graças a boa vontade de pessoas que moram em lugares cheios de sonhos. Na verdade, esses alimentos são disputados a unhas e dentes. Mamãe se aventurava, mas meu irmãozinho a prendeu em casa. Sua saúde é bem frágil.

Peço a Deus que me faça crescer logo.
Quero ter forças para ajudar minha mãe e meu irmãozinho.Não sei como poderei fazer isso, não em um lugar onde a vida chega a custar 1 kilo de alimento.

Passou do meio dia, acho que vou prá casa!


Por Nido Ramos.


Autor(a): Nido.
Temas: Amor, Vida, Humanidade
Tipo: Conto
Avaliação:
 

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